O STF e o Mundo Oculto de Uma Elite Irresponsável

 

Fonte: O Estadão                                                                                                                                          

Com detalhes  minuciosos,  juristas, jornalistas e pesquisadores estão expondo as atividades de um mundo oculto de uma elite irresponsável e de conduta criminosa irrefutável, antes furtivas ou secretas. Está vindo à tona o tratamento privilegiado desta classe dominante, composta em grande parte por homens ricos e poderosos dos negócios, da política e do STF, que parecem estar sangrando no escândalo do Master. 

No maior escândalo financeiro do país, observa-se que não é só o Master mas outros exemplos pelo mundo afora mostram que a elite dominante oferece de tudo: dinheiro, conexões, jantares suntuosos, avião particular e,  em alguns casos, sexo. Os que estão em busca de mais condutas criminosas deverão continuar vasculhando cada vez mais o escândalo do Master, já que algumas pistas são verdadeiras.

Vale lembrar o que disse a professora de história, Nicole Hemmer, da Universidade de Vanderbilt, ao escrever sobre cultura política e o conluio entre as elites financeiras e os poderes constituídos, que vem de longe. Para ela, mesmo assim as pessoas parecem chocadas com a extensão da cumplicidade da elite em seu mundo. É um nível de corrupção, sempre mantido oculto, mas agora o público está vendo por completo

Percebe-se no serviço público os privilégios e supersalários de uma casta cujas vidas luxuosas contrastam com as dificuldades da maioria de brasileiros comuns, sobretudo os que vivem de bolsa família. Essa história de impunidade é ainda mais ultrajante agora, em meio à crescente raiva populista e à desigualdade cada vez maior.

Em texto anterior mencionamos que a razão pela qual precisamos tributar os super-ricos é porque sua riqueza desproporcional lhes confere um poder grotesco. Temos bilionários se gabando de poder comprar eleições. A existência de super-ricos não serve a um propósito público, pois eles não contribuem para uma sociedade democrática estável.

Assim sendo, precisamos abandonar a ideia absurda de que o governo tributa os super-ricos porque precisa "arrecadar receita". Essa ideia é absurda, já que o dinheiro arrecadado com impostos é criado pelo governo e injetado na economia. Portanto, os super-ricos devem ter uma dupla tributação. Uma para cobrir os gastos com saúde,  educação e qualidade de vida dos mais pobre e outra tributação pelos males contra a democracia e o desenvolvimento social.

Quando o Estado é capturado pelas elites, cria-se um ciclo vicioso devastador de corrupção. As elites dominantes deste país garantem que podem usar o governo para lucrar, esmagar a concorrência e dominar o mercado. Isto faz do governo uma maneira de enriquecer, levando-o a compactuar com a corrupção. Cria-se uma cultura de corrupção rotineira e de base. Se você é um funcionário público, precisa encontrar coisas para roubar porque alguém acima de você já está fazendo isso. Não há a quem recorrer para obter responsabilização.

Por outro lado, segundo o Conselho da Europa, não parece tarefa fácil entender e combater a corrupção judicial.  Na maioria dos casos, após a instauração de processo disciplinar contra juízes, estes “astutamente” renunciam ao cargo para evitar a apresentação de provas que estabeleçam o verdadeiro motivo de sua demissão, de modo a parecerem inocentes perante o público.

Assim sendo, segundo o Conselho da Europa, é difícil determinar a conduta corrupta de juízes,  que sempre permanece oculta e essa hipocrisia acaba por criar a percepção de persistência e proteção da corrupção dos juízes. Para este Conselho, os questionamentos sobre os padrões éticos e a origem de bens de juízes e promotores demonstram a necessidade de um processo de avaliação para a criação de um judiciário independente, livre de corrupção e tráfico de influência. 

No Brasil, a situação deve ser pior. No caso do STF, um dos critérios básicos a ser usado para a escolha de um ministro do STF, a exemplo do notório saber jurídico, não é considerado. Além disto, não existe definição de um limite de tempo no cargo. São cargos vitalícios. Parece razoável limitar estes cargos a um período de cinco anos, podendo ser renovado com base numa avaliação rígida, por mais cinco anos. A ocupação da Corte não considera também a questão de gênero.

Há poucos meses o Presidente Lula indicou um candidato, quando o critério parece ter sido o de potencial de votos e não de gênero ou notório saber jurídico, negando o clamor da sociedade, que reconhece a necessidade de várias mulheres nos quadros do STF, visando a obtenção de uma melhor Justiça.

No caso do Brasil, o Congresso Nacional deve definir uma legislação para o combate da corrupção judicial, incluindo a eliminação de supersalários e outros privilégios, reforma do judiciário, incluindo transparência, indicação, punição e empeachment de ministros e um processo de avaliação de juízes e promotores para o bem da democracia e desenvolvimento social. Este Congresso que esta aí jamais fará isto. Não adianta falar num código de ética ou conduta, sem mudanças mais profundas. 

Não fosse a captura do governo por uma elite tão perversa, o bem-estar e qualidade de vida dos brasileiros seriam outros. Se nas próximas eleições os eleitores pensarem nisto, não elegerão os que estão aí querendo o poder para manter o status quo.      

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